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História

O que é ser de esquerda, hoje?

O perfil da esquerda sofreu uma mutação com o tempo, abrindo um leque complexo de temáticas, antes, desapercebidas. Quem nunca mudou foi a burguesia continental, que sempre opôs-se à distribuição de renda, à desconcentração das terras e à socialização do poder político e econômico.

A “modernidade” nasceu com o Renascimento, a Reforma e a conquista das Américas. Encerrou-se com os horrores das duas Guerras Mundiais. Começou então a gincana intelectual para achar uma expressão adequada à sociedade que sobreveio. “Pós-industrial”, arriscou-se nos anos 50. “Pós-moderna”, insinuou-se nos 80. “Era nova”, comemorou-se no auge da globalização teleguiada pelo capital financeiro, nos 90. Esses termos suscitaram discussões e confusões semânticas na academia e nos cafés, o que esvaziou o potencial analítico de cada um. Mas ajudaram a compreender a crise dos paradigmas modernos e suas negatividades intrínsecas. 

Que paradigmas? 1) a economia de mercado, que acelerou a urbanização do ser humano, desembocando no neoliberalismo e na violência no cotidiano das metrópoles; 2) o progresso nas ciências e nas técnicas de manipulação da matéria não-viva (exploração da energia atômica) e viva (descoberta do DNA, práticas de clonagem), com desenlaces imprevisíveis, indo de uma possível hecatombe a servidões jamais imaginadas; 3) os esforços seculares da opinião pública para controlar o poder político, que não consideraram o fato de a mídia induzir em larga escala o juízo da cidadania, através da radiofonia, da televisão e dos jornais, que a propriedade cruzada agrava; 4) a conversão do indivíduo em vértice social e moral da sociedade, que não levou em conta que a massificação (heteronomia) corrói a livre consciência (autonomia) e; 5) a preeminência do eurocentrismo na avaliação de outras culturas, que conduziu ao colonialismo. 

A lição a ser tirada, conforme o filósofo francês Pierre Fougeyrollas (A crise dos paradigmas modernos e o novo pensamento, 2007), remete a uma forma de pensar comprometida com a espécie e o planeta. “Cósmica”, para reintegrar a humanidade no cosmos. “Lúdica”, para estampar a criatividade poética e artística na abordagem do real. “Demiúrgica”, para apropriar-se do existente e promover uma recriação de tudo, com espírito ecumênico. “Interativa”, para subverter as hierarquias clássicas do conhecimento, conectando intuições e conceitos, ideias e imagens. Os eixos estratégicos do “novo pensamento” decorrem de um olhar realista sobre o presente. 

Esse programa traduz a luta dos movimentos sociais e ambientalistas que reúnem-se nas edições do Fórum Social Mundial e, para 2012, já preparam um rol de intervenções visando a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que marcará duas décadas da Eco-92. O modelo de desenvolvimento ocidental (o modo de produção e de consumo), baseado na dominação da natureza, sem nenhum planejamento democrático, esgotou-se. Urge um mundo de fraternidade. Como pregou São Francisco de Assis, ao celebrar o Irmão Sol (Fratello Sole) e a Irmã Lua (Sorella Luna). Ou como indicou Marx, no terceiro volume d'O Capital, ao definir o socialismo como a sociedade onde “os produtores associados organizam racionalmente as suas trocas com a natureza”. No caso, a emotiva prece cristã e o prognóstico ateu coincidem. 

Ecossocialismo
Publicado em 2002, o “Manifesto Ecossocialista Internacional” conjuga o socialismo e o ecologismo, de maneira orgânica. “Na nossa visão, as crises ecológicas e o colapso social estão relacionados e deveriam ser encarados como manifestações diferentes das mesmas forças estruturais”, lê-se no documento. Os desequilíbrios são o preço pago pela incontrolável dinâmica da acumulação, da ânsia de rentabilidade que não pode ser cancelada, da suposição de que os recursos naturais são infinitos, do ideal de enriquecimento pessoal. “Cresça ou morra”, é o lema do capitalismo. Seja “vencedor”, não “perdedor”, é o imperativo do mercado. No entanto, a lógica do produtivismo é insuportável. Orientada pelo valor de troca em detrimento do valor de uso, a produção ilimitada causa danos ambientais de proporções irreparáveis. 

“Não se trata de opor os 'maus' capitalistas ecocidas aos 'bons' capitalistas verdes: é o próprio sistema, ancorado na concorrência impiedosa, nas exigências de lucro rápido, que é o destruidor do meio ambiente”, sublinha Michael Löwy. Sob certo aspecto, a falsa subdivisão apareceu no Protocolo de Kyoto (1997), que empregou dois mecanismos na tentativa de conter as emissões de carbono na atmosfera, o Cap and Trade: um teto máximo de emissões e um mercado de troca de títulos de direito de emissão de carbono no hemisfério Sul, para compensar a poluição provocada pelas nações industrializadas do Norte. Com o que o carbono atmosférico virou uma commodity.Forjado nas leis do mercado, o artifício para sensibilizar (a rigor, chantagear) o “empreendorismo” fracassou e as emissões aumentaram três vezes mais. A autonomização da economia não permite a sua subordinação a um controle social, político ou ético-ambiental. 

O resultado é a profusão de bens desnecessários, e a escassez daqueles necessários às demandas sociais e ao equilíbrio ecológico. A política econômica capitalista é alinhavada por valores monetários. Não se rege por nenhuma consciência de espécie e tampouco planetária. Por isso, acarreta riscos iminentes para o futuro. “Se a primeira contradição do capitalismo se dá entre as forças produtivas e as relações de produção, a segunda ocorre entre as forças produtivas e as condições de produção (trabalhadores, espaço urbano, natureza)”, observou James O'Connor, editor da revista norte-americana Capitalism, Nature and Socialism. Hoje, não existe a contradição principal e a secundária, elas apresentam-se imbricadas. O ecossocialismo pugna em ambas as frentes. 

O marxismo renovou-se ao encontrar a ecologia, a problemática de gênero e raça. Não se confirmou a assertiva de que suas categorias teóricas (os modos de produção e a formação econômico-social) seriam demasiado esquemáticas para apreender a sobreposição das esferas ideológica, política e econômica, e a articulação dos processos ecológicos, tecnológicos e culturais que constituem os suportes de sustentabilidade da produção. O marxismo revelou-se aberto às oposições não-classistas e comedido em relação à noção de “progresso”. Atento às forças destrutivas do capitalismo. Reside aí a contribuição do ecologismo à práxismarxista. Em contrapartida, os movimentos ecologistas que estenderam as mãos ao marxismo somaram, à denúncia do produtivismo, a percepção crítica sobre as estruturas sócio-econômicas que impulsionam a ganância.

Ecologia de mercado
Não raros, circunscrevem as mobilizações ecológicas aos temas pontuais, sem contextualizá-las em uma totalidade significativa. Apostam em um “capitalismo limpo”, que combine a “responsabilidade social”, apregoada pelos que elidiram do Estado a obrigação de políticas para erradicar a pobreza, e a “responsabilidade verde”, destacada com ridículas medalhas ao mérito para as empresas que adotam uma praça ou um canteiro de plantas. Abstêm-se de pressionar o aparelho estatal para que tome iniciativas em prol dos setores sociais desfavorecidos e do combalido meio ambiente. Propõem “ecotaxas” aos infratores da legalidade, se tanto. Preocupam-se com os “excessos”, não com o que rotiniza a predação. Tais inhapas são absorvidas pelo status quo, passando a impressão que a ameaça sobre a Terra (Gaia, no dizer de um pioneiro, José Lutzenberger) pode ser revertida com um marketingde “varejo”, prescindindo das políticas de “atacado”. 

Se essa parcela de ativistas exprime um discernimento precário ao agir, o mesmo ocorre quando o movimento operário alia-se ao lobby da indústria automobilística para forçar vantagens fiscais. O automóvel, glamourizado e erotizado pela publicidade, é um símbolo do american way of life, da incitação ao consumo individual. Calcula-se que 45% do território de Los Angeles esteja reservado aos carros, incluindo a área viária e os estacionamentos. Em São Paulo, chega-se a algo em torno de 35%. Politicamente correto é investir no transporte coletivo de qualidade, em faixas segregadas para ônibus, trens de superfície, metrôs e bicicletas nas cidades para evitar os congestionamentos, bem como pleitear ferrovias para desafogo dos pesados caminhões de carga nas estradas, que engordam as estatísticas de acidentes com vítimas. Tragédias, aliás, que não se resolvem em mesas redondas com as associações de construtores de veículos automotivos e os consumidores para estudar os dispositivos de freios, o raiado dos pneus, etc. Resolvem-se com o participacionismo social, desde que este postule um outro modo de vida, sob um horizonte civilizacional que supere o fetichismo da mercadoria de rodas. 

Os verdes tendem a abstrair da história a defesa ambiental, tecendo uma responsabilização genérica, como se um ascensorista de elevador tivesse idêntica parcela de envolvimento que o proprietário de uma fábrica de celulose. “A culpa é do homem”, são as manchetes jornalísticas nos cadernos especiaissobrea agenda do crescimento sustentável. Vale salientar, contudo, que os ambientalistas europeus fizeram a leitura correta das eleições presidenciais brasileiras. Declararam apoio a Dilma Rousseff, no segundo turno, para que “o voto libertário em Marina Silva paradoxalmente não se transformasse em uma catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os direitos da natureza... José Serra não é um socialdemocrata de centro... Por trás dele, a direita mobiliza o que há de pior... preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses econômicos escusos e míopes”. Entre os signatários, Dany Cohn Bendit (Alemanha), Alain Lipietz (França), Philippe Lamberts (Bélgica), Monica Frassoni (Itália).

O bom senso (que veio do frio) não contagiou Marina que, ao invés de dramatizar o momento em que decidia-se a continuidade do projeto representado pelo governo Lula (avanços sociais, participação cidadã, política externa soberana) ou a volta ao neoliberalismo (privatizações, desemprego, corrupção, submissão à Alca e aos EUA), optaram pela neutralidade. Com o que, dois terços dos eleitores do PV penderam para o candidato do atraso, sem um gesto sequer da dirigente-mor para impedir o deslizamento político. A pequenez tirou do partido o papel de educador das massas, despolitizou as escolhas e fez tábua rasa das duras batalhas contra as desigualdades sociais e regionais. Ao contrário de situar os verdes nativos como uma pretensa alternativa, o vergonhoso silêncio erigiu-os em tristes bengalas auxiliares da reação nas urnas.

Esquerda versus Direita
Anthony Giddens (Para além da esquerda e da direita, 1994), mentor da “Terceira Via”, tentou uma síntese superior entre o conservadorismo e o socialismo, os quais teriam sido abatidos pela marcha da globalização e a expansão da reflexividade social. O campo da política, assim, haveria se alterado e cedido terreno aos paradoxos do neoliberalismo. Sua sugestão para “repensar” o Welfare State (o Estado de bem-estar social) foi acolhida pelo primeiro-ministro britânico, e em nada diferenciou-se do receituário de Thatcher/Major. Tony Blair manteve a legislação que flexibilizava e desregulamentava o contrato de trabalho e, com cinismo, explicitou em um discurso a essência da Third Way: “flexibilização sim, mas com fair play”. O livro do sociólogo inglês mostra o quanto a esquerda desceu ao inferno no período, rendendo-se ao Consenso de Washington.

Coube a Norberto Bobbio (Direita e esquerda, 1994) defender a atualidade da díade política que remonta à Revolução Francesa. A esquerda teria como epicentro o valor da “igualdade” (as pessoas são mais iguais que desiguais, socialmente). A direita, o valor da “liberdade” (as pessoas são mais desiguais que iguais, naturalmente). A importância da reflexão, lançada numa época em que o capitalismo triunfante trombeteava o “fim das ideologias”, esteve em (re)legitimar a dualidade político-ideológica. O opúsculo do jurista italiano teve 200 mil exemplares vendidos e 19 traduções em um curto prazo. Como Fênix, o pássaro da mitologia grega, a esquerda renascia depois de assassinada pelas agências internacionais de notícias, que viram na queda do Muro de Berlim (1989) a domesticação da utopia e o desaparecimento da rebeldia e da esperança.

Mas o princípio da igualdade não exaure a conceituação sobre o que significa externar uma atitude anticapitalista. No final do século 19, ser de esquerda era lutar pelos direitos políticos e pelo sufrágio universal. Não mais que isso. Ao longo do século 20, outras bandeiras incorporaram-se ao (nosso) prontuário de lutas identitárias: as ações pelos direitos civis e sociais, contra o colonialismo e pela independência nacional, o combate à hegemonia imperial estadunidense, a equanimidade de gênero, as afirmações étnicas, o respeito às diferenças, a integração dos países latino-americanos, a inversão de prioridades na administração pública e, ainda, a democracia participativa, cuja inspiração acha-se condensada na máxima de que “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. A partir dos anos 70, surgiu a questão ecológica. 

O perfil da esquerda sofreu uma mutação com o tempo, abrindo um leque complexo de temáticas, antes, desapercebidas. Quem nunca mudou foi a burguesia continental, que sempre opôs-se à distribuição de renda, à desconcentração das terras e à socialização do poder político e econômico. Aquela, desde priscas eras, reitera uma contrariedade ao pagamento de impostos. Não porque sejam regressivos ou recolhidos com critérios tributários que penalizam as classes trabalhadoras. Mas porque, com a ascensão de governos democrático-populares na América Latina, os fundos públicos são redirecionados por políticas republicanas à dignificação da vida da população. “Prefiro ser essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, cantava Raul Seixas. Isso, para preservar a coerência com a “justiça social” no enfrentamento à “ordem estabelecida”. Acrescente-se, no metafórico aniversário de 31 anos do PT.

Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


Autor: Prof. Rafael.
Postado por:

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Revista Vernáculo, n. 17 e 18, 2006 
160 
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter – conseqüências 
pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 
2005. 
Raphael Guilherme de Carvalho

Richard Sennett (1943 – ), nascido em Chicago, nos EUA, é
sociólogo. Atualmente, vive e trabalha em Londres, Inglaterra, na 
“London School of Economics” e no MIT (“Massachussets Institut of 
Tecnology”). Sennett, como sociólogo, é um homem de preocupações 
“atuais”. Seus trabalhos mais conhecidos versam sobre a sociedade 
contemporânea, sobre o “novo capitalismo”, sobre a decadência da 
vida pública, sobre as cidades modernas – o urbano – e as relações, 
nelas, entre os indivíduos. É autor, entre outros, de “A cultura do 
novo capitalismo” (2006) e “O declínio do homem público” (1977). 
A corrosão do caráter trata-se, conforme a definição do 
próprio autor, de um “ensaio-discussão”, em que se mesclam 
elementos teóricos – sociológicos  e filosóficos – e empíricos – as 
entrevistas e observações, muitas vezes informais, baseadas no exame 
da vida cotidiana, além dos dados estatísticos. A obra é dividida em 
oito capítulos, que discutem, em  separado, mas não “isoladamente” 
(ou seja, sem perder de vista)  os aspectos do novo capitalismo que 
concorrem para a “corrosão do caráter”, ou o enfraquecimento de 
valores outrora fundamentais: o compromisso, a confiança, a 
lealdade. Entre estes aspectos, o mais fundamental para a 
compreensão do texto – e, claro, da realidade que nos toca 
diretamente em relação ao mundo do trabalho – é a noção de 
“capitalismo flexível”. 
Característica marcante do “novo capitalismo” – o de pelo 
menos duas décadas para cá –, a “flexibilidade” é sedutora e, por isso 
mesmo, enganosa. Ela insinua que se possa alcançar alguma liberdade 
individual, mas Sennett a desmistifica e afirma que a repulsão à rotina 
burocrática na verdade produz novas formas de poder e controle.  O 
autor identifica os elementos que se escondem nas modernas formas de flexibilidade das empresas e  produzem um sistema de poder: a 
reinvenção descontínua de instituições; a especialização flexível de 
produção; a concentração de  poder sem centralização. Estas 
estratégias empresariais estão ligadas às necessidades financeiras de 
retorno imediato, de curtíssimo prazo, e às demandas, também 
instantâneas dos mercados consumidores. A aceleração dos prazos e 
processos, na ansiedade de obter  resultados em curtíssimo prazo, 
permitiu aos funcionários um certo controle sobre suas próprias 
atividades – um “controle” na verdade vigiado, sobretudo por meio 
das contínuas inovações tecnológicas; estas, versões ainda mais 
sofisticadas das técnicas de vigilância. 
A “organização do tempo” no novo capitalismo pode, segundo 
Sennett, nos mostrar como os três elementos se articulam. O 
“flexitempo”, que se pretende um substituto “moderno” da burocracia 
rígida e racional – da qual trata Weber, um dos referenciais teóricos 
de Sennett –, intensifica a dominação e a alienação do trabalhador. 
Substitui-se, portanto, a rotina  padronizada, monótona, por um 
mosaico de horários, de rotinas individualizadas. Na empresa, cada 
qual cumpre horários diferentes. Ela, a empresa, está funcionando, 
muitas vezes, sem parar. O trabalho em casa, supostamente 
“libertador”, criou mecanismos eficientes para se controlar os 
ausentes do escritório: os trabalhadores deixam de encarar, face a 
face, o poder ao qual se submetem, mas estão submetidos às formas 
eletrônicas. Embora o trabalho fisicamente descentralizado, o poder 
sobre o trabalhador é, assim, mais direto.  
O capitalismo dito flexível acaba por desviar os trabalhadores 
de um rumo único em suas carreiras. Talvez nem se possa pensar 
mais em “carreira” propriamente dita, uma vez que as pessoas fazem 
“partes de trabalho” durante suas vidas, se deslocam de uma cidade a 
outra com freqüência, mudam de trabalho assiduamente. Com isso, 
suas vidas deixam de produzir uma narrativa linear, são agora 
fragmentadas, aparecem como uma  colagem incoerente; perde-se o 
vigor do seu sentido, perde-se até mesmo a autoria da própria vida. 
Esse descontínuo gera ansiedade, uma vez que se impõe a necessidade de constantemente correr riscos. Há assim forte impacto 
sobre o caráter pessoal nessa sociedade ansiosa, impaciente e 
imediatista. 
A ética do trabalho também se altera: a seriedade da antiga 
ética do trabalho fazia as pessoas  provarem seu valor pelo trabalho, 
para o que era necessária uma rigorosa disciplina e a automodelação 
em um único sentido, ou seja, uma carreira linear, conforme Weber. 
Hoje a “moderna” ética do trabalho prega a necessidade do trabalho 
em equipe, de constante adaptação e readaptação a pessoas e 
ambientes diferentes, por curtos períodos de tempo. Nela, mais uma 
ilusão: a de que os “chefes” não  o são de fato, a de que não há 
antagonismo entre o chefe e o trabalhador. Nela, eles aparecem como 
“administradores” ou “guias” do grupo. Como demonstra Sennet, 
nada além de uma fuga de seu aspecto autoritário. Embora não haja 
mais a figura do chefe centralizador de poder, a dominação 
permanece permeando as relações de trabalho.  
A lógica do trabalho em equipes produz o caráter do homem 
irônico, que não acredita em si mesmo pois sabe que depende de um 
contínuo recriar-se:  nada é fixo, tudo está sujeito a mudanças 
repentinas, não há autoridade que reconheça os feitos deste homem 
irônico. A crescente informatização dos ambientes de trabalho, por 
sua vez,em substituição aos aparelhos mecânicos, não substitui 
apenas estes aparelhos, mas também a inteligência do trabalhador. 
Este último não cria laços de identidade com seu trabalho – 
consequentemente, os laços de classe são frouxos. Conforme as 
entrevistas com os funcionários da padaria  high-tech de Boston, o 
comprometimento com o trabalho é superficial, uma vez que se 
tornou ilegível para o trabalhador, que muitas vezes não entende o 
que faz. 
Ouro aspecto interessante trabalhado por Sennett é o 
“fracasso”, grande tabu moderno, que, ao invés de bater à porta dos 
desvalidos e desprivilegiados, é tema recorrente entre a classe média. 
Os entrevistados, ex-funcionários demitidos da IBM, concordam que 
o motivo de seus “fracassos” é exclusivamente por culpa individual. 
Na verdade, pouco refletem a respeito do colapso de suas carreiras, 
nem se empenham em construir narrativas sólidas sobre o que poderia 
reservar-lhes o futuro. 
A indiferença é, portanto, outro fator de corrosão do caráter e 
seu corolário é a falta de confiança, aguçada pelo extremo 
individualismo. “Não há destino  partilhado”, disse Sennett. A frase 
final do livro é bastante instigante. Ela aponta uma crença? Um 
pessimismo? Uma alternativa? Uma provocação? Uma contradição 
do próprio “sistema”? Diz Sennet:  “um regime que não oferece aos 
seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode 
preservar sua legitimidade por muito tempo”. 
É importante ressaltarmos, neste momento, alguns 
apontamentos do autor a título de conclusão: o imediatismo e a 
ansiedade, a fragmentação e o flexitempo, o fosso entre as gerações, a 
indiferença e a alienação, todos estes fatores concorrem para uma 
amoralidade corruptora do caráter; o discurso da flexibilização, 
potencializado pelas novas tecnologias de comunicação, esconde, na 
verdade, novas ferramentas de controle, mascaradas por uma vaga e 
suspeita promessa de liberdade. 
A corrosão do caráter traz à luz um valiosíssimo diagnóstico 
do tempo presente. Partindo, como se fora historiador, de problemas 
presentes, Sennett faz um estudo  que nos permite visualizar com 
clareza as relações entre um presente imediato – o novo capitalismo – 
e um passado não tão distante – o capitalismo de organização 
burocrática pensado por Weber – nos dois sentidos. Não podemos 
deixar de perceber, nem perder de vista, a preocupação política que 
permeia a obra.  Sua preocupação com as cidades – estudioso que é 
do urbanismo – estão intimamente atreladas às preocupações 
políticas.  Os destinos recentes das cidades apontam para a 
decadência da vida pública, para a superposição do social em relação 
ao político e para as privatizações (no sentido original, de privações).  
É importante lembrarmos de Hannah Arendt e a valorização 
da pluralidade como condição básica da política e da existência dos 
homens em comunidade – o sentido da política é, desde sua origem histórica, na  pólis arcaica e clássica, o espaço de prevalência da 
palavra, o diálogo. Lembramos de  Deleuze e seu diagnóstico das 
sociedades de controle. Deleuze, como Sennett, desconfia das 
supostas “facilidades” e “confortos”, como o acesso às contas 
bancárias de dentro de casa, via internet (o banco e seus mecanismos 
de vigilância e controle estão também dentro de casa). Lembramos 
também de Michel Foucault e o poder microfísico, ilegível ou não 
localizável. 
A obra de Sennet, portanto, contribui de maneira bastante 
eficaz para o debate acerca da  contemporaneidade, em diálogo com 
estes outros grandes pensadores comprometidos com o entendimento 
do presente vivido. Nela, o homem está presente, enquanto sujeito, ao 
mesmo tempo produtor e vítima de um sistema (ou regime) que, de 
acordo com Sennet, não se sustenta por muito tempo. Porque, de 
acordo com nossas conjecturas, não promove diálogo – nem política, em sua acepção original.

Autor: Prof. Rafael
Postado por: Otome